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dez
09

As Mulheres de Tarantino


Death Proof (Tarantino, EUA, 2007)

Para quem acompanha sua obra, já ficou óbvio há algum tempo que Quentin Tarantino é um diretor com obsessões bem definidas. Adolescente em conteúdo e maduro na forma, desde Pulp Fiction seus filmes giram sempre em torno da idéia central de vingança. Se fruto de sua adoração pelos filmes-B ou extensão de algum aspecto de sua personalidade não se pode precisar, mas fato é que boa parte do ímpeto criativo do diretor trabalha para nos apresentar vinganças cada vez mais impactantes e bem elaboradas. É o que podemos ver nas duas partes de Kill Bill (2003, 2004) e em Bastardos Inglórios (2009). Soma a isso uma rica teia de homenagens à cultura dos filmes B e séries de TV da década de 80 para trás, prática que já se tornou para o diretor uma segunda natureza, parte integrante de uma concepção muito particular de história e narrativa.

Se em Pulp Fiction (1994) homenageou a chamada ficção barata típica dos anos 50, em Jackie Brown (1997) foi a vez revitalizar a carreira de Pam Grier, atriz famosa por suas atuações no gênero blaxploitation – filmes da década de 70 dirigidos ao público negro norte-americano. O duplo Kill Bill rendeu homenagem a um número incontável de referências, em especial os filmes de Bruce Lee e a clássica série de TV O Besouro Verde, passando também pela animação japonesa.

Chegamos então a este À Prova de Morte (Death Proof, 2007), filme concebido em parceria com o mexicano Robert Rodriguez (de Sin City, 2005) como um double-feature. Nos Estados Unidos, Prova… foi lançado junto à Planeta Terror, em uma exibição dupla contendo falsos trailers e programação visual no estilo grindhouse – cinemas que exibiam, na década de 70, filmes com muito sexo, violência e temas bizarros. Para chegar à aparência decadente do gênero, os negativos foram danificados para criar os riscos e defeitos característicos das exibições da época. Enquanto Planeta Terror – a seção de Rodriguez – chegou ao Brasil de forma independente ainda em 2007, somente agora (talvez no embalo de Bastardos Inglórios) Prova de Morte chega aos cinemas nacionais.

No centro do mais novo trabalho velho de Tarantino, um astro do cinema de ação que ultimamente passeava por filmes mais adocicados: Kurt Russel. Seu personagem, stuntman Mike, é o que o diretor chama em entrevista de um verdadeiro baddass – um durão dublê de hollywood que aterroriza garotinhas indefesas com seu Chevy Nova 1970 “à prova de morte”, um carro especialmente reforçado para resistir a todo tipo de batida.

A atuação de Russel é digna de nota, pela precisão com que alterna momentos de intensa violência com outros em que seu personagem se comporta de forma pueril e inocente, revelando pouco a pouco uma camada de ironia antes escondida. As atrizes são um deleite à parte, voluptuosas e lascivamente enquadradas pelo diretor, que demonstra uma inegável preferência por glúteos femininos. É evidente a construção de uma expectativa erótica nos primeiros vinte minutos de filme, violentamente desconstruída no decorrer da trama. Os diálogos lembram os de Pulp Fiction, com temas casuais e deliciosamente bem escritos.

Causa um efeito interessante assistir À Prova de Morte após Bastardos Inglórios, filme que é em muitos aspectos uma evolução deste. A diferenças ficam por conta do aspecto setentista deste filme de quase duas horas, mas que parece mais curto. Efeito alcançado pelo final objetivo e sem enrolação, que lembra as séries de TV antigas com suas resoluções apressadas, que precisavam ceder espaço rapidamente aos intervalos comerciais.

Assim como em Kill Bill e Bastardos…, este é um filme de fortes personagens femininas. Não deve ser por acaso que o diretor confere tanto poder às suas mulheres. Em À Prova de Morte, vemos uma pequena revolução impulsionada pelo mais puro girl power. O resultado é um filme veloz, energético e descompromissado. Sem jogadas obscuras, Tarantino põe suas cartas na mesa e nos convoca para o jogo. A nós, espectadores, cabe apenas aceitar o convite.

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1 Response to “As Mulheres de Tarantino”


  1. dezembro 28, 2009 às 5:52 pm

    É verdade, as mulheres estão sempre no centro, nunca tinha parado para pensar no viéz do girl power nos filmes do diretor. Em Bastardos, a história de Shosanna Dreyfus parece ficar a parte diante dos homens, mas é ela quem arquiteta a morte mais inusitada do cinema, hehe.


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