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dez
09

Atividade Paranormal

Às 16:50 de uma quarta-feira começa a sessão. Ingresso barato, sala lotada por (pré) adolescentes ansiosos, poucos e deslocados adultos e um crítico de cinema cheio de boa vontade. O filme é Atividade Paranormal, nova coqueluche do filão inaugurado por A Bruxa de Blair: filmes que, utilizando artifícios que dão às suas imagens a impressão de captura de fatos reais, conseguem produzir no público super-treinado dos cinemas um medo genuíno, que os “filmes de verdade”, com suas artimanhas psicológicas e overdose de efeitos há muito deixou de provocar.

Mal o filme se inicia e a ruidosa platéia já começa a se manifestar. As piadas são constantes e vêem de todos os lados. O propósito dos adolescentes é, claro, domar o filme, inseri-lo no contexto da presepada e com isso provar que são durões e não se assustam facilmente. Algo que não aconteceu com Steven Spielberg, que, após assistir em DVD à primeira versão, relatou ter ficado aterrorizado após uma porta de sua casa trancar-se misteriosamente. No dia seguinte, a cópia retornou aos estúdios da Dreamworks num saco de lixo, e o diretor relatou a colegas que a mesma estava “assombrada”. Passado o susto, foi fechado negócio: Atividade Paranormal seria lançado nos cinemas pela Paramount.

Aos poucos as piadas diminuem, substituídas por ondas de comoção e gritos estridentes. Ao meu lado uma mulher cobre o rosto. Na fileira de cima outras duas têm os pés em cima da cadeira, em posição fetal. Nada mal para um filme de terror com um orçamento de quinze mil dólares, filmado inteiramente na casa do diretor e contando com um elenco de dois atores. Oren Peli, um game designer israelense que nunca tinha feito um filme na vida, se baseou em seu próprio medo de fantasmas para escrever o roteiro. Pensou inicialmente em fazer um documentário, mas achou que isso apenas o deixaria ainda mais assustado. Preferiu colocar seus medos para fora em uma obra de ficção.

A estrutura formal é extremamente simples. Os episódios paranormais são poucos em comparação com outros filmes do gênero, mas bem intercalados com diversos momentos de descontração descrevendo a rotina do casal – o que serve também para reforçar o “realismo” desta “história de fita encontrada”. A entidade maligna, provavelmente um demônio, eleva aos poucos o teor de suas manifestações, aumentando também a tensão na audiência. A história bem amarrada não se presta a saltos, e a progressão dramática é mais sofisticada do que levaria a crer a imagem bamboleante.

Ao final da sessão, os comentários da platéia reforçam o palpite do crítico: estão todos verdadeiramente assustados. Ainda que a contragosto, Atividade Paranormal capturou suas atenções, vencendo bravamente as inúmeras conversas paralelas, ligações de celular e presepeira generalizada. Muitos levantam apressados de suas cadeiras, como se quisessem abandonar o cinema o mais rápido possível. “É o filme mais forte que eu já assisti”, diz uma mulher na fila da frente. O excelente trailler, disponível na internet, contem apenas as reações aterrorizadas das platéias nas sessões de teste. Nada mais adequado para um filme que, em lugar da exibição de virtuosismo técnico e das explicações pseudo-psicanalíticas que tomaram conta do gênero nos últimos anos, busca e alcança aquele que é o efeito primordial da histórias de horror: o medo – puro, simples e revigorante.

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3 Responses to “Atividade Paranormal”


  1. dezembro 28, 2009 às 5:47 pm

    Davi, você não vai acreditar, mas aconteceu uma coisa engraçada com esse seu texto. Uma amiga minha comentou comigo que leu uma crítica bem legal sobre Atividade Paranormal no jornal, que o autor falava só da reação da platéia e que eu tinha que ver. Na hora me veio uma intuição que o texto poderia ser seu, como não tenho jornal A Tarde, fiquei de procurar no seu blog depois. hehe. Muito legal a sacada, eu ainda não tive coragem de conferir o filme, mas vou me arriscar em 2010.

    bjs

  2. dezembro 28, 2009 às 6:13 pm

    Pois é!, e quando comecei a ler seu comentário achei que iria dizer que começaram a acontecer fenômenos paranormais com quem lia o texto também! Imagine só, um blog assombrado!

    bj

  3. janeiro 2, 2010 às 8:46 pm

    Esse filme realmente superou minhas expectativas… Eu estava achando que chegaria lá e assistiria à um filme de terror como qlqr outro, que no final, o monstro aparecia e a mocinha sairia sem nenhum arranhão psicológico rs… Mas… Eu fiquei com muito medo, e amei sentir isso, fazia tempo que eu não me assustava tanto com um filme de terror! Vc falou da reação das pessoas ao ver o filme, mas qual foi a sua reação?


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