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Woody Allen encontra Seinfeld


crítica publicada no jornal A Tarde, 06 de novembro de 2009

Woody Allen, diretor de mais de 40 filmes, já se tornou parte da cultura pop. Seus personagens fizeram escola e, em 1990, com a estréia de Seinfeld – também conhecida como a série de TV mais engraçada de todos os tempos -, sua neurose urbana e comentários da vida moderna ganharam versão mais cínica e politicamente incorreta. Em 2000, Larry David, até então o obscuro criador da sitcom, criou e protagonizou uma nova série, Curb Your Enthusiasm (controle seu entusiasmo). Foram sete temporadas, indo a fundo nas neuroses que eram em Seinfeld uma parte do cardápio.

Em Whatever WorksTudo Pode Dar Certo, no título nacional -, é este mesmo Larry David que Woody recruta para interpretar, é claro, Woody Allen. Em um primeiro momento, o diretor do filme, que estreia nacionalmente hoje mas ainda não tem data para chegar a Salvador, parece repetir o procedimento de emular sua presença através de outros atores, como no fraco Igual a Tudo na Vida – quando escalou Jason Biggs, o adolescente cheio de hormônios de American Pie – e no apenas regular Melinda and Melinda, com o comediante Will Ferrel. O que faz sentido, pois o Woody Allen ator já dava sinais de cansaço em Dirigindo no Escuro e, de forma acentuada, em Scoop. O que se vê não é, no entanto, uma mera transferência de porta-voz. O roteiro, escrito nos anos 70, foi modernizado e adaptado à persona de Larry David. O ator rouba a cena e consegue nos fazer esquecer a presença do diretor. É notável a habilidade de Larry em entregar ao espectador as falas mais antipáticas e ainda manter uma empatia com a audiência, tornada cúmplice das reclamações deste homem que não descansa diante da estupidez que tomou conta de sua cidade. Evan Rachel Wood, como a ingênua caipira pela qual Boris se apaixona, é uma ótima aquisição para a galeria de mulheres de Woody Allen. Sua atuação é de uma pureza tocante, páreo somente para a sua estupidez. Uma mistura de Mira Sorvino em Poderosa Afrodite com Scarlett Johanson em Scoop.

Embora fruto de uma história requentada, necessidade imposta pela greve dos roteiristas à qual Allen aderiu em 2008, Whatever Works acrescenta informações à cinematografia do diretor. Em lugar dos finais permeados de desilusão, este filme, ao contrário do que diz Boris no monólogo inicial, se deixa levar com desenvoltura a um novelesco final feliz. Como diz o protagonista, no final a gente fica mesmo com whatever works, ou qualquer coisa que dê certo, pra citar a boa tradução de Rubens Ewald Filho.

Para conhecer melhor o diretor, pode-se começar por Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo E Tinha Medo de Perguntar (1972), com situações antológicas que resumem o espírito anárquico dos primeiros trabalhos. Após esta fase, as piadas vão se somar a situações hostis, injetando os personagens de desencanto. O humor vai quase sempre figurar como elemento para o comentário sarcástico com efeito melancólico, como se vê em Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa – 1977), ganhador do Oscar de melhor filme e considerado um dos melhores filmes de Woody. Nessa linha temos também o belíssimo Manhattan, ponto alto da parceria de Woody com o diretor de fotografia Gordon Willis (que trabalhou em O Poderoso Chefão).

Existe também um ciclo de filmes mais intimistas, influenciados pelo trabalho de Ingmar Bergman, que tratam de dramas femininos, conjugais e familiares. Interiores (1978), Hannah e Suas Irmãs (1986), Setembro (1987) e A Outra (1988) estão nesse grupo.

Nos anos 1990, o já veterano diretor produziu obras-primas que conquistaram uma nova geração de fãs, como Tiros na Broadway (1994), Poderosa Afrodite (1995) e Desconstruindo Harry (1997). Os anos 2000 começaram bem, com a deliciosa comédia Os Trapaceiros, sobre uma gangue de ladrões de meia-idade que abre uma loja de biscoitos como fachada para um roubo e acabam se ficando ricos com o negócio.

Depois disso, uma sequência de filmes irregulares maculou sua filmografia, como O Escorpião de Jade (2001), Dirigindo no Escuro (2002), Igual a Tudo na Vida (2003) e Melinda é Melinda (2004). Sequência quebrada por Match Point (2005), sucesso inquestionável. Depois de um leve tropeço em Scoop (2006), Woody fez um filme melhor que o outro. Com O Sonho de Cassandra (2007) produziu uma sombria tragédia moderna, seguido pelo sucesso de Vicky Cristina Barcelona (2008) e, agora, Tudo Pode Dar Certo. Prova de que, não importa a época, sempre vale a pena esperar coisas boas de Woody Allen.

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