Arquivo para setembro \02\UTC 2009

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Salvem a Professorinha

O vídeo da professora soteropolitana Jaqueline Carvalho em sua dança da música “Todo Enfiado” já se tornou endêmico na internet. Pela dimensão do episódio, não tem resultado concreto a tentativa de impedir sua divulgação. Retira-se um vídeo, aparece outro em seguida – quiçá mais completo.

A rede de computadores insere novos caracteres na dinâmica social, pois amplia a intercessão entre o que se pode considerar público e privado. Casos como esse, no entanto, revelam um lado cruel da situação. Dizendo-se espantados com tamanha demonstração de imoralidade por parte de uma professora de alfabetização e pré-escolar, muitos se apressam em assumir o papel de arautos dos bons costumes, julgando-a sumariamente.

Em entrevista a um veículo de comunicação, Jaqueline declara, sobre a sua dança: “É apenas sensual. Na Bahia isso é cultural e normal acontecer”. O que, convenhamos, não está longe da verdade. Enquanto formadores de opinião preferem não sujar as mãos na cultura de massa, nos bairros populares o pagode baiano, o arrocha e suas danças sexualizadas crescem à margem de qualquer contextualização. Entre a parcela “melhor informada” da sociedade, é de bom tom criticar os mesmos ritmos que, retocados por arranjos de axé music, animam festas e blocos de carnaval desta mesma “elite”.

Acrescenta-se, ainda, o fato de que a tal dança aconteceu não na sala de aula, mas em casa de shows dedicada exclusivamente a espetáculos de pagode, onde manifestações de erotismo são não só toleradas como requisitadas. Todos os frequentadores estavam, portanto, cientes e desejosos do que iam encontrar. Me pergunto se geraria a mesma comoção um vídeo que exibisse o comportamento “ingênuo” de muitas crianças, que imitam as dançarinas de pagode e recitam de cor letras de músicas com duplos, terceiros e quartos sentidos – frequentemente para o deleite dos pais. Para uma discussão fértil sobre o alcance do episódio, é necessário portanto eliminar a execração moralista que vem tomando conta do debate. Com sua declaração, a professora Jaqueline deu o primeiro passo para isso.