Arquivo para agosto \31\UTC 2009

31
ago
09

CRISE – parte 2

PARKER!!!

Gritou o editor-chefe do Jornal, um latino gordo queimado suado sentimental de bigodinho.

Levou meses pra Peter se acostumar ao clima tropical. No começo sentia tanto calor que a teia já saía do punho na forma de uma gosma branca disforme. Mas as coisas iam bem. Ao menos é o que ele achava.

“Homem-Aranha estoura boca de fumo? Homem-Aranha denuncia corrupção na assembléia? Cadê a cratera que eu te mandei cobrir na AV. ACM, o defunto no bairro da Paz, o problema das barracas de praia? Isso que cê trouxe não é notícia, rapaz.”

Ele não entendia porquê a Bahia não tinha supervilões. Tampouco tinha Super-Heróis. Não espanta. Em Salvador não existem laboratório com emissor de raios-gama, insetos radioativos, criaturas do olimpo, experimentos nucleares, viajantes do tempo ou visitantes extraterrenos. Pra passar o tempo, de vez em combatia o tráfico de drogas, mas, convenhamos, pra quem já combateu nas Guerras Secretas apreender papelotes de maconha não era muito desafiador. Sentia-se inútil. Em que superforça e capacidade de grudar em paredes ajudaria no problema evasão escolar e no combate à miséria? Claro, com a ajuda dele o bairro da Paz estava afinal pacificado. Mas, sem emprego, as pessoas comuns apenas se voltavam para crimes menos chamativos, enquanto o tráfico aos poucos resolvia seus conflitos internos e se fortalecia para enfrentar o herói. Com políticos no bolso e policiais na lista de pagamento, finalmente os verdadeiros vilões tinham algo contra quê lutar.

(continua…)

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26
ago
09

CRISE – parte 1

“O bicho tá pegando”, pensou, pouco antes de cortar o rosto com a gilete enferrujada. Peter Parker preferia estar jogando teias em sua querida New York, mas dois meses de desemprego mudam muita coisa. Tia May agora costura roupas de bebê pra emergentes porto-riquenhos do Bronx, enquanto Mary Jane… bom, Peter não quer nem lembrar. Difícil manter uma relação sem aquela grana extra pro cinema, restaurante e motelzinho três estrelas. Mas a situação ficou particularmente complicada quando Parker descobriu que sua high school honey tava ganhando uns trocados num dos bordéis do Rei do Crime. Era previsível – Mary era muito bonita e talentosa, mas os trabalhos de modelo minguaram do dia pra noite.

Com a recessão, câmeras digitais de cinquenta dólares e notícias na internet, as vendas do Clarim despencaram, e o Jameson não queria saber de Parker, nem mesmo quando ele aparecia com fotos exclusivas do Homem Aranha. O noticiário econômico era barato, e Jonah tentava alavancar as vendas com cadernos especiais de empregos e dicas para concursos. De repente, o convite pra trabalhar de fotógrafo em um pequeno jornal da américa latina não parecia tão ruim. E essa é a história de como Peter Parker veio trabalhar na Tribuna da Bahia.

(continua…)

08
ago
09

Felipe e a Catarse das Massas

Há mais do que se imagina na comoção em torno do acidente do piloto de Fórmula 1 Felipe Massa. O drama do ferrarista lembrou, em seus primeiros momentos, a morte de Ayrton Senna, aflorando no público um luto remanescente. O adeus, sufocado pela dura realidade da morte rápida e brutal do eterno ídolo, sublimou-se coletivamente. Na recuperação de Felipe Massa, lutamos e vencemos. O episódio bem sucedido parece fechar uma fratura que permanecia exposta no inconsciente nacional. Não acredito, no entanto, que seja sensato permitir que o tema segurança nas corridas saia rápido demais da pauta do dia. Nosso espanto deve ser mantido, nossa afeição coletiva, redirecionada para uma pergunta simples: o que nos faz acreditar que um evento reunindo 20 pilotos em carros exíguos cuja velocidade final atinge até 360km/h pode, sob qualquer regulação, ser considerado um esporte seguro?

O noticiário da rede Globo é o mais efusivo em suas demonstrações de pesar, mas que interesses se escondem sob o tom lacrimejoso das reportagens? Todos sabemos da ditadura do IBOPE, e de certa forma a aceitamos, mas esta lógica indecente se torna por demais escandalosa neste caso. A mesma transmissão que coloca os grandes pilotos no panteão olímpico é aquela que sanciona e lucra com os mais brutais acidentes, de inegável plasticidade, filmados por todos os ângulos possíveis com curiosidade pornográfica. O pós-acidente é especialmente rentável, pois adiciona à história o caráter humano que nos conecta à essa figura meio homem meio máquina que é o piloto, relativizando com cores mais quentes a idéia de agilidade e eficiência que costuma ser associada aos ases do volante.

Desde sua criação em 1950, nada menos que 45 pilotos morreram em acidentes nas pistas da Formula 1. Em 1994, na prova de Ímola, Itália, o piloto austríaco Roland Ratzenberger morrera em um acidente na etapa classificatória. Antes, na sexta-feira, Rubens Barrichello também havia passado por um sério acidente, que o tirou da corrida. As imagens do fatídico domingo, com Senna pensativo antes de entrar no carro da Willians que o levaria à morte, foram reproduzidas à exaustão. Sabe-se que, após a morte de Ratzenberger, o piloto brasileiro articulava a criação de uma organização de pilotos para pressionar por regras e equipamentos mais seguros. Quinze anos se passaram desde a morte de Ayrton Senna e, desde então, a categoria não registrou nenhum acidente fatal. As regras mudaram e os equipamentos de segurança evoluíram. Mas eis que, em 2009, uma singela mola parte do carro de Rubens Barrichelo para, contra toda previsão, jogar areia no mito do controle total via tecnologia. E neste ponto inserimos uma outra pergunta: será que a vida humana vale o espetáculo? Quanto de culpa represada existe nestes processos de luto coletivo?