Arquivo para junho \04\UTC 2009

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Acordou de um pesadelo.


A Persistência da Memória, de Salvador Dalí

Palavras distantes perdiam sentido à medida que abria os olhos, deixando em seu corpo somente o desgosto que logo o fez querer morrer. Sim, estava envelhecendo. Um sonrisal na água – era assim que sentia – uma partícula efervescente no copo d´água da vida.

Estava com 26 anos.

Teve relacionamentos dignos de nota, com os altos e baixos naturais, mas no final sempre é-isso-mesmo, deixa eu me esconder aqui desse mundo filhadaputa. Namoradas, um casamento curto, mais namoradas e sempre o mesmo sofrer de quem não sabe o que procura, mas sente a falta quando perde.

E o tempo começou a passar em décadas.

Tentou ser como as pessoas, que fazem tanto em tão pouco tempo. Não era pra ele. Afinal, desistiu. Teve uma vida agradável. Ouvia barulhos distantes na janela do apartamento e ignorava o que o fizesse sentir demais. Foi mais vezes ao mar, meditou dias inteiros, foi o grande amigo de muita gente e nunca se magoou, pois deles nada esperava. Viu crescer os sobrinhos e foi criança de novo (ou seria a primeira vez?). Com ele a família floresceu e diminuiu – a morte desfazendo laços, os mais novos colocando-o de lado como a relíquia velha que se prefere não jogar fora. Morreu. No enterro, ninguém para chorá-lo. Lágrimas apenas dos mais sensíveis, que se comoviam pela atmosfera sepucral. Antes, no velório, alguém comentara – ´Engraçado, ele está com a mesma expressão de sempre.´