Arquivo de julho \21\UTC 2009

21
jul
09

Os Tagarelas do Multiplex

Não sou opositor da instituição shopping center. Gosto de fast-food, ar-condicionado central e escadas rolantes. Admiro a assepsia, o chão limpo e as vitrines com palavras em inglês. Mas, ao contrário de muita gente, eu ainda gosto de cinema, e quando falo cinema quero dizer mais especificamente que gosto assistir filmes. Gosto de vê-los e ouvi-los em sua integridade, mesmo que antes de entrar na sala eu tenha comprado um milk-shake do Bob’s e uma pipoca de cinco litros.

Ainda que não concorde integralmente com a condenação de André Setaro ao ato de shopear, é compreensível a irritação do professor em vista da balbúrdia que se instalou em nossas salas de cinema. Hoje, a ida ao cinema se tornou extensão do ato de compra e aquisição, de modo que o público, entre uma relação de consumo e outra, permanece excitado e não se predispõe ao jogo estético da contemplação.

Se há algum tempo era necessário reclamar com uns e outros para assistir ao filme em silêncio, hoje isso se tornou impossível, pois o conversê vem de todos os lados, distâncias e volumes. Os assuntos são os mais variados, mas os que mais irritam são os comentadores, isto é, aquelas pessoas que se especializam em afirmar o óbvio. Estes tagarelas não se contentam com a posição de apreciadores, pois têm uma necessidade ignóbil de emitir comentários abjetos, como (ao ver um pássaro que antes era branco e agora aparece na cor preta) “olha, agora o pássaro está preto”, ou (ao ver o protagonista chorar a morte da mãe) “ele está chorando, deve estar triste”. O que os motiva a agir como espelhos verbais do que mostra a tela? Que função imaginam cumprir quando assim o fazem e, pior, quem está disposto a escutá-los?

O tagarela ignora o fato de que o código narrativo que tem à sua disposição faz parte também do repertório dos outros espectadores presentes à sala. Assombrado com o próprio conhecimento, deseja expor à sua platéia as mais óbvias inferências que realiza, provando cena após cena sua plena integração ao contexto do filme. Mas como é possível que um indivíduo, no ano de 2009, ignore o fato de que a linguagem narrativa audiovisual é hoje tão ou mais corrente (porquê internacional) que nosso próprio idioma local?

Talvez seja uma questão de formação. Hoje, novos cinéfilos se criam não em exibições públicas, mas nas salas de tv e home-theaters das casas. Adeptos da experiência solitária, estes expectadores não compreendem a dimensão coletiva do cinema. São presas da própria eficiência de um objeto – o filme – que introduz na percepção um interessante paradoxo: embora deva produzir seus efeitos em um grande número de pessoas, age com desenvoltura em um conjunto de emoções e percepções cognitivas consideradas íntimas, e facilmente classificáveis como pessoais, únicas, singulares.

Se o entendimento dos programas audiovisuais não se fundamenta pela discussão e reconhecimento, o espectador solitário é levado a pensar que somente a ele foi concedida uma determinada chave interpretativa. Na ausência de instâncias para a discussão, tais como cineclubes, eventos e grupos de estudos de cinema, o debate é levado para a própria sessão, sabotando a experiência estética e criando um ciclo de frustrações. A morte do cinema em seu mais privilegiado espaço de fruição.

17
jul
09

Em 1994…

Em 1994 o google ainda não existia, internet era coisa de gente anti-social e computadores serviam para muitas coisas além de msn, orkut e myspace. Gifs animados eram o máximo, e eu me lembro claramente de ter levado alguns meses para baixar o equivalente a dois segundos de um video do Nirvana em baixa qualidade – o que, ainda assim, impressionou muita gente na época. Eu me conectava via linha telefônica a 14400bps (bytes por segundo) e me considerava um privilegiado em poder baixar minha própria pornografia. Até hoje lembro com saudades da musiquinha do Trumpet, e da sensação de conquista ao ouví-la até o fim para saber se minha conexão deu certo.

94 também foi o ano da condenação de PC Farias (dois anos atrás, tiramos do poder o nosso primeiro – e perfeitamente corrupto – presidente do pós-ditadura). Nelson Mandela tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul, e na Itália o fascista e magnata da comunicação Silvio Berlusconi conquistou seu primeiro mandato legislativo. 24 anos depois de Pelé, Tostão e Carlos Alberto fazerem história no México, é a vez de Dunga levantar a taça junto com Romário, Bebeto e Raí, após uma dramática cobrança de pêlnatis – a coroação da era Parreira do futebol de resultados. Em maio, morre Ayrton Senna, deixando para trás milhões de fans e um Barichelo cada vez mais ensimesmado. Após uma sucessão de planos econômicos esquizofrênicos, o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso controla a inflação e estabiliza a economia: é o plano real, nova panacéia da classe média empobrecida.

A extinta TV Manchete começa a exibir Os Cavaleiros do Zodíaco, primeira grande febre de anime a chegar no Brasil, marcando uma geração de crianças que a partir de então teriam como maior objetivo de suas vidas conseguir a última peça da armadura de ouro (feita de plástico pela Bandai) do Shiryou – mesmo que fosse roubada do coleguinha de sala. A Viagem, primeira novela espírita da Globo, ganhava um remake com Christiane Torloni no papel principal e Guilherme Fontes como o feroz obsessor-do-casaco-preto Alexandre. When I Come Around (Green Day), Crazy (Aerosmith) e All That She Wants (Ace of Base) são os hits do momento. E enquanto o Oasis estreava com Definetly Maybe, o Blur lançava seu terceiro disco, Parklife

No cinema, é o ano de Pulp Fiction, A Lista de Schindler e Jurassic Park. Nascem Dakota Fanning, Pedro Malta e Isabelle Drummond. Morrem Savannah, Mussum, Raul Julia e Kurt Cobain.

1994 também é o ano em que meus pais se divorciam, voltam e depois se divorciam de novo, com direito a roupas na calçada e arremesso público de vinis do Clube da Equina. Coincidentemente, é quando eu começo a apanhar na escola, perco em todas as matérias menos História, conheço os milagres da psicologia moderna, afogo as mágoas em guaraná Brahma e jogo Doom até meus olhos saltarem pra fora. Mas essa é uma outra história…




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